Diário de Um Jardim

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quinta-feira, maio 26, 2005

Sensibilidade

Di�rio de Um Jardim

O dia está sensível a ele mesmo:tão fresco e quieto a ponto de causar-me arrepios. Tenho medo da calmaria! Estou sempre exposta aos intemperismos do mundo. Um dia sensível...Na verdade, não sei o que quero dizer com isso. Penso que minha sensibilidade está mais à margem, então, concluo que o dia também. Hoje, minhas palavras estão saindo meio arrastadas. Estou no escuro!Nem a Lua veio me visitar_ sou mar parado em solidão aguada! E sobrevivo flor.
Meus olhos espocam no ar sem nenhum brilho. é o tempo de mim que não quer passar. Eu sarei. Estou viva depois de mim mesma_ rio selvagem de alegria indiscreta.
O pássaro monossilábico partiu outra vez. Trocou-me por uma outra flor, que eu desconheço. E eu rebentei em desilusões anciãs.Eu te amo, pássaro! Tu és lindo, em penas, bico e cor! Não consigo mais, ele levou-me a inspiração: o meu grau íntimo de felicidade.
Isto vos confesso:eu não sei amar. Antes acreditava que amaria uma única vez. Hoje sei que posso amar muitas e é sempre diferente da vez que já se foi! Como queria ser igual, aliás, que fosse sempre igual. Como meu amor pelas coisas. Ou pela coisa_ a coisa de mim. Será que ainda vou viver um grande amor? Parece inútil perguntar. Quem vai saber? Não tenho muita consciência do amor_ ele me divide no que conheço e desconheço.E quero ser inteira, mas estou partida, fragmentada no amor cruel que não tenho mais. Isto não te importa,não é? Então ouve música, canta, vai embora! Mas antes disso tudo, ouve-me: Eu me declaro em amor por ti! Entreguei-me de corpo e ilusão como só me entrego à minha própria sorte! _Escolhe!

domingo, maio 22, 2005

Não sei como dizer...Mas estou triste!

Di�rio de Um Jardim

O cinza da manhã parece ser extensão de mim. O vento agradável, que sopra frio, aquece intimamente minha tristeza. Como queria poder partir em longas caminhadas_a via- crucis da minha frágil existência. Em busca de mim? Ou em busca do que eu nem sei o que é? Acontece que, hoje, estou tão confusa quantos os gentis novelos de lã grossa e protetora utilizados por minha avó: Orquídea Maior.
Sinto o mundo sobre meus ombros, a responsabilidade de ter que conviver docemente com o que me incomoda. Tenho um sentimento de fera quando sou apenas uma flor, curvada às suas próprias vontades. Como queria não sofrer; não ouvir a voz que sopra de dentro de mim_que me faz infeliz quando tudo o que busco é a felicidade.
E a chuva se derrama sobre o dia! Oh dia que me conduz insano à beira! Estou à margem da minha existência_à margem do meu próprio calor: brilho de sol esmorecido pela vida. E não tem volta...Voltar a ser feliz é batalha perdida.Um sorriso que não sai.
Respiro fundo: um suspiro de desconforto; uma cruel tentativa de me libertar. E de quê? Um sono profundo. Já não faço mais sentido. E para que fazer sentido? A beleza da vida esconde-se no sentido que não se encontra.Eu nasci e não faço sentido. A vida da vida não faz sentido. O que no mundo faz sentido? As formigas talvez.Mas não sou formiga_uma formiga é alheia às dores do mundo. E eu? Há sentido em sentir as dores do mundo? O mundo é a própria dor do mundo! Eu, então, sou minha própria dor_íntima e solitária como um astro que paira na imensidão azul.


domingo, maio 15, 2005

A Noite Do Jardim

O silêncio da noite não me consegue consolar, ele dói, punge bem no meu interior, trazendo à tona justamente aquilo que, arduamente, tento expulsar da minha memória: tu, pássaro monossilábico.
Neste momento, o vento canta triste sua canção de ninar; as gotas da chuva caem apressadas na gramínea do jardim_minha realidade verde. E eu, que um dia fui o centro das atenções, sou apenas um ser pontual na existência tolhida dos meus sentimentos.
Não, não te quero mais ter em meus pensamentos! Tu que me confundes com um único suspiro_um leve sopro gélido de incompreensão transpassa toda a minha frágil e íntima existência de flor.Não te quero aqui! penso eu selvagem e desencontrada.
A natureza, solidária à minha dor, rebelou-se contra todos e a chuva derramava sua fúria sobre si mesma e sobre mim e sobre tudo e todos, que jaziam sob ela.Mas, tu permanecias ali,paralítico, impregnando todo o meu corpo com o teu aroma.Contudo, a natureza não foi capaz de expulsar-te de mim.Eu não permiti, tu não quiseste!
Foi, então, que percebi que tua ausência causava-me um vazio_vácuo de existência suave, luz feroz e corajosa em atravessar o negro espaço desconhecido. E não me bastavam somente as dádivas do jardim. E uma espécie de suspensão de mim mesma acometeu-me, uma realidade relativa abriu-se diante de mim para a qual eu, gentilmente, projetei-me na tentativa de suavizar os efeitos da vida sobre mim_superfície áspera onde me arranho inteira e sobrevivo em porções de mim; porções que se renovam em dolorosos arranhões.Não era nada além de uma extensão da realidade , que me continha. E minha dor não era real, era a dor que tu querias que eu sentisse; não a dor que eu deveras sentia. Era a sua dor que me devorava de corpo e alma(o meu amor que foi tragado pelo teu vasto silêncio de adulto). A criança de ti já morrera e eu era só uma flor.

domingo, maio 08, 2005

Dentre todos os tons de azul, este novo é o mais profundo

Ela não percebeu que eu a via. A culpa, porém, era minha. Afinal, eu não me esforcei em falar-lhe coisa alguma; nem um ínfimo gesto!
E eu estranhamente estava feliz. Uma orquídea azul agora fazia parte da realidade do jardim. E tal fato dizia muito a mim mesma: eu, que antes só encontrava sentido em rosas e girassóis e beija-flores e abelhas e caracóis, pude sentir, maravilhada, o poder da orquídea, daquela orquídea azul, única e digna de admiração, embora me parecesse estar no auge do seu langor.
E eu queria tanto dizer-lhe para não temer... porém eu a deixei sozinha durante toda a noite. Eu, que estou mais presa por minha insegurança do que por minhas raízes, queria apenas conseguir lhe dizer abertamente que se a vida fez dela parte do jardim, feliz eu a receberia como parte dele; que éramos apenas diferentes, mas mesmo assim oriundas da mesma matéria: sonhos e sentimentos.