Diário de Um Jardim

<<-@ ... As divagações filosóficas de uma rosa e seus amigos ... @->>

quarta-feira, fevereiro 23, 2005

A noite sem amanhã

O caracol é persistente, ele tenta recomeçar..., tenta sonhar novamente..., tenta..., tenta... Por vezes, acha que está no caminho certo..., sente-se feliz com presenças tão doces... Mas, há dias em que a nostalgia o domina por completo. A nostalgia do que foi..., do que poderia ter sido..., as saudades do futuro... Ele procura justificativas..., mas não as encontra... Até sua capacidade de sonhar é cada vez menor. A dureza da realidade o cerca por todos os lados e sempre o traz de volta à terra úmida. E, o que é pior, ele está se acostumando a esta terra. Nos momentos de lucidez teme pelo dia em que estará tão identificado a ela ..., que não mais se poderá distingui-lo; seus sonhos estarão incorporados à terra de uma vez por todas. Então, o caracol terá sido mais um dos lampejos que existiram neste grande jogo de espelhos... O caracol sempre procurou uma "saída verdadeira"; agora, se contenta em encontrar uma saída qualquer... Será que ela existe? Poderá ele ainda construir uma? O caracol procura palavras que consigam expressar o que se passa em sua alma..., mas hoje, nesta noite tenebrosa, está difícil encontrá-las... Lembra-se, contudo, das palavras de alguém que viveu isso muito antes dele..., palavras de rara beleza que ele pede permissão para fazê-las suas neste momento: "E abertamente entreguei meu coração à terra séria e doente, e muitas vezes, na noite sagrada, prometi amá-la fielmente até a morte, sem medo, com a sua pesada carga de fatalidade, e não desprezar nenhum de seus enigmas. Dessa forma, liguei-me à fatalidade por um elo mortal." (Hölderlin, A morte de Empédocles)

terça-feira, fevereiro 22, 2005

À procura

Passei o dia me procurando e, quando me vi, me perdi. Quase me esqueci. E quando desisti da procura, me notei.

sexta-feira, fevereiro 18, 2005

A Rosa Ouve a Abelha

Quando há um grito na alma, o que fazer, a não ser deixá-lo ecoar pelo próprio ser, pelo mundo, pelo tempo? Afinal, não se pode calar a insatisfação.
Mas é claro que haverá muitos que não saberão ouvir ou entender ou se importar. Porém, não considero isso uma lástima, em princípio: nossas razões e sentimentos são tão altos, tão sublimes e insondáveis, que somente um profundo conhecimento por parte de quem ouve o nosso clamor é capaz de nos interpretar.
Entretanto, isso não é tudo! Há aqueles que nos amam, e que são capazes de nos compreender, mesmo que não possam alcançar esse conhecimento em sua totalidade.
Eu sempre admirei a Abelha. Sempre ouvi atentamente e considerei tudo o que disse. E muito além, sempre percebi como todos ao seu redor a respeitam e reverenciam. Todos estão atentos, esperando o início da revolução (não é estaria o conflito no destino de uma abelha que se tornará rainha?). Ela só precisa gritar na direção certa, para não permitir que o vento leve sua voz pra longe.

quarta-feira, fevereiro 16, 2005

O Grito

Todos pensavam que as abelhas tinham o poder de persuasão por ter como arma seus zumbidos fortes e altivos. Mas nem todas as abelhas são assim. Esta, por exemplo,que vive neste jardim, luta muito para fazer com que outras criaturas a escutem, que levem em consideração suas palavras. Ela já tinha esquecido de como é duro ter suas palavras jogadas ao vento. Será preciso gritar??? Não,esta abelhinha não é assim. Ela só quer ser notada, está sempre em busca de entendimentos sobre o mundo e como os seres se equilibram com a natureza. Ainda bem que ela pode desfrutar da presença da Rosa, do Girassol e claro, agora, do Caracol também.
A Abelha respira triste ao perceber que, na prática, nada mudou. Tudo continua como antes: duro, incerto, egoísta, surdo! Talvez seja preciso criar coragem e gritar.Gritar um grito de revolta , de apelo, para fazer com que percebam que ela também quer, também chora, também tem medo, também quer troca.
Enquanto isso, ela continua fechada com um vazio na alma, no coração. Mas isso passa...ela precisa acreditar para não ter sua vida controlada pela insignificância da parte.

terça-feira, fevereiro 15, 2005

Uma Palavra Ao Caracol

Não lamento minha natureza estática, essas raízes que são minha vida e minha morte. Porém, reconheço que não há nada mais digno do que o seguir de um caracol.
Não importa para onde vai; muito menos de onde vem. O que ele sempre leva consigo, isto é o que o dignifica: sua casa sempre às costas. Sim, um caracol nunca deixa suas convicções para trás. Sonhos e descobertas são seus grandes companheiros de jornada.
Nunca hei de pensar, no entanto, que são tais coisas fáceis no trato; oh, não, pelo contrário: ele sempre sofre mais que os outros, pois seu fardo é pesado. Mas isto não é desventura: quando ele chega ao seu destino, não chega por chegar; não sente o vazio que sentem os vencedores depois da vitória. Pois seu triunfo real não é chegar, mas sim perceber que em toda a caminhada conseguiu conservar junto de si tudo o que sempre teve e o que foi cativando e conquistando no decorrer de sua busca. Por isso, creio que ela própria lhe encha o coração. Mas se não, aquieto-me. Trazendo consigo o que ele traz, um motivo para seguir é inevitável.

Dignas de Destaque São As Palavras de Um Caracol

"Desculpem-me pela intromissão. Digo desde já que não sou jardineiro, mas gosto muito de flores e belos jardins. Outrora tive medo de abelha, mas não é mais o caso. Sua graciosidade, fluidez e, principalmente, sua paixão em sempre recomeçar, me encantam. Aliás, foi através do zumbido de uma certa abelha que fiquei sabendo da existência desse jardim. E a curiosidade não cessou, ..., será algo como o “Jardim de Epicuro”? ... Tive que conferir!Considerem-me um caracol de jardim, desses que vivem à sombra das flores, em sua longa obstinação. O que seria dele se, ao levantar os olhos, não se deparasse com a irresistível beleza das flores. E, sem estas, seu mundo não seria apenas menos belo, mas sim, muito mais perigoso. Caracóis são delicados e torram-se ao sol direto. Do jardim, ele ainda vislumbra a abelhinha em seu vôo ao cair da tarde, ..., tão perto e tão distante... Digna de admiração, porquanto emancipada das condições telúricas.O girassol segue a sua luz. O caracol, por vezes, não acredita que exista algo a ser seguido. Vive sobre a terra úmida e, às vezes, sente-se, ele próprio, terra também.E a Rosa? Será uma cativante rosa vermelha? Uma tranqüila rosa branca? Uma sincera rosa amarela? Uma indecifrável rosa chá? Uma autêntica rosa rosa? (Por que a fixação em tipos tão puros? Não seria melhor uma combinação de todas elas?). Ele não a viu. Mas, ao entrar no jardim, percebeu sua presença, sentiu seu perfume e, neste pequeno universo, medido pelo espaço sem céu e pelo tempo sem profundidade, o caracol disse consigo mesmo: “Acho que tudo está bem”, e essa é uma fala sagrada, ..., de tantas reminiscências ..., pois ela ecoa neste universo feroz e limitado (um jardim!?) e o lembra que tudo não foi e não está esgotado ... Sentiu-se bem. E este contentamento silencioso o acompanhará em sua procura (O que procura o caracol?) ... Cada grão desse jardim, cada pedrinha, cada flor, para ele constituem um mundo. E o caracol, continuando sua busca, reconhece que a própria busca é suficiente para preencher um coração humano (ops!, digo, de caracol).Certamente, ao percorrer as alamedas e recônditos deste jardim, o caracol formou, ainda que intuitivamente, algumas idéias acerca de seus habitantes. Contudo, não poderia externá-las antes de seguir o conselho de Montaigne, ou seja, falar de si próprio. Talvez, à guisa de apresentação."

sábado, fevereiro 12, 2005

Livrando-se das Ervas Daninhas

Levei um grande susto quando afinal percebi o jardim! Quantas plantas desconhecidas estão agora entre mim e meus velhos amigos... já nem consigo vislumbrar bem o Girassol. A Abelha, ainda bem que tem asinhas, assim ainda posso vê-la de vez em quando.
Mas o Girassol... não há jeito para nós. Temos, afinal, a mesma natureza: aprisionados estamos, enraizados em lugares diferentes. Não quero, porém, ser egoísta! As novas plantinhas do jardim têm sido seus amigos mais próximos. E se ele está feliz, então também estou.
Porém, agora tenho percebido umas certas plantas traiçoeiras que surgiram próximas de mim...não sei quem as trouxe: o vento, algum insetinho ou pequeno animal inocente, ou talvez não. O certo é que elas gostam de disseminar os maus sentimentos: tentam me convencer, a todo custo, que estou sozinha, como antes, como sempre. E que não há mais ninguém que se importe.
Eu me esforço bastante pra não acreditar nelas. Mas às vezes é tão difícil...elas conhecem bem meu ponto fraco! Gostaria de apenas ignorá-las, gostaria de mostrar a elas que estão erradas, que meu pequenino jardim me ama, e eu a ele; que somos uma família, a despeito de qualquer coisa ou situação.
Ainda não me entreguei, no entanto. Quando tudo fica insurpotável demais, eu crio asas de borboleta e vôo longe, e tudo o que ouço são murmúrios falsos que já não possuem significado algum.