Diário de Um Jardim

<<-@ ... As divagações filosóficas de uma rosa e seus amigos ... @->>

domingo, agosto 22, 2004

Trecho - "Cidadela", de Antoine de Saint-Exupéry

"As paredes da prisão não podem confinar aquele que ama.
Ele é de um império que não está nas coisas, mas sim no sentido das coisas, e zomba dos muros."



Eu amo o meu jardim!!!

A Metamorfose da Rosa - Parte 1

Link com a história "A Lagarta que Chorava Dia e Noite"
Pareceu-me que o tempo parara para a lagarta; a nada esboçava reação, num sono que não tinha fim.
Eu estava realmente preocupada (será que ela... ela tinha morrido de ressentimento, como acontece com a maioria das lagartas?!). Entristecí-me: não era isso que eu desejava a ela, apesar de todo transtorno que me causara.
Mas eu nada podia fazer; apenas esperar,
esperar, esperar...
O grande problema é que as rosas não foram feitas para esperar!
E eu olhava ao redor; não havia ninguém que pudesse efetivamente fazer algo por ela ou por mim. Não havia ninguém que sequer percebesse que algo estava errado. Naquele instante, o desespero inundou meu ser: percebi que estava sozinha.
Porém, são exatamente nestas situações que os milagres acontecem, como se todos os seres e elementos do universo se alinhassem , concorredo em favor de um único ser, de uma única vida. Pois foi exatamente naquele momento que avistei minha amiga borboleta, suas cores lindas se misturando às cores do jardim.
E algo em mim sorriu.

Era estranho como eu não conseguia conceber que aquela lagartinha podia vir a ser como minha amiga borboleta. Acho que, no fundo, eu não acreditava em mudanças drásticas.
É interessante como as borboletas têm o poder de sentir os sentimentos dos outros: ela sentiu a minha angústia. Minha tristeza:

- E então: vejo que agora você não está assim tão só... - foi a primeira coisa que me disse, olhando para a lagarta. - ...por que, então, a tristeza?
Eu estava disposta a lhe contar tudo, tudo mesmo. Mas antes, eu não podia me esquecer: a lagartinha precisava de ajuda!!!
- Querida borboleta, esta lagarta pregiçosa e pretenciosamente instalada em minhas folhas, ela...acho que está morrendo... - arregalei meus olhos, dado o meu estado de desespero, ainda que contido. - E o pior: é morte por ressentimento incontrolado!
A borboleta sorriu para mim, o que momentaneamente me fez pensar que meus sentimentos estavam sendo ridicularizados.
Ela se aproximou da lagarta; olhou bem: de um lado, de outro.
- Era o que eu pensava! Chegou a sua hora! - ela disse ao vento.
-Hora...h-h-hora da morte? - eu titubeei.
Eu tenho horror à morte.

A única inimiga que tenho... será que ela tinha vencido e destruído a lagarta?
- Hora de mudar. - foi o que a borboleta simplesmente disse.
"Hora de mudar..." Nunca antes, em minha curta existência, esta palavra (mudar!!!) me parecera tão assustadora.
- Então é assim que uma lagarta se torna borboleta?! - eu estava estupefata (e aliviada, confesso: ela estava viva!!!).
- Por que se espanta? Não se esqueça que a metamorfose que se faz notável na lagarta acontece-te todo o dia.






quinta-feira, agosto 19, 2004

A Rosa de Hiroshima

Pensem nas crianças mudas telepáticas
Pensem nas meninas cegas ,inexatas;
Pensem nas mulheres rotas, alteradas;
Pensem nas feridas como Rosas Cálidas;
Mais oh !!Não se esqueça da Rosa da Rosa;
Da Rosa de Hiroshima ,a Rosa Hereditária;
Da Rosa Radioativa, Estúpida, Inválida;
A Rosa com Cirrose a Anti-Rosa Atômica
Sem Cor nem Perfume.

Vinicius de Moraes

quarta-feira, agosto 18, 2004

A abelha e suas responsabilidades

Cada dia que passa percebo que não sou mais uma criaturinha.Hoje tenho milhares de responsabilidades que se eu deixar me atropelam por inteira.Tudo isto para que um dia eu consiga sozinha construir minha própria colmeia.Para chegar lá, primeiro terei que me agarrar aos cálculos e geometrias da vida.Sinto que às vezes não tenho muita visão geométrica das coisas em minha volta.Está chegando o dia em que eu,euzinha,criarei minha própria casinha.Será que me lembro de como se faz um hexágono?Ah,já me lembrei!Acho que o medo faz isso comigo.Tenho que lembrar suas fórmulas,relações de triângulos...Nossa!A vida é tão doida!Essa é a vida real.Estou quase lá.Falta muito pouco.Mas até esse dia chegar estarei aqui,disfrutando da liberdade de estar neste jardim...

terça-feira, agosto 17, 2004

O Eclipse de um Amor - Parte 1: Um girassol Tonto

Nada é mais terrível para um Girassol do que um eclipse. Quando eclipses ocorrem, eles mostram para os Girassóis que aquilo que ele tinha como mais certo e imutável (que o sol estará sempre lá, à despeito do Girassol) se torna duvidoso. É um momento em que ele sabe onde o sol deveria estar mas ele não consegue vê-lo. Por causa disso ele começa a girar sem rumo em todas as direções buscando o astro rei. E isso o deixa tonto.
A lua começava a se pôr na frente do sol quando o Girassol encontrou a Joaninha. Mal sabia ele os percalços que a Joaninha tinha atravessado naquele dia. Uma manhã fria fizera com que o orvalho se acumulasse no jardim e ela se cansara muito tentando se desviar das gotas d’água até conseguir chegar perto do Girassol. Mas quem disse que ele enxergava isso. Era bem capaz de nessa hora ele não estar mais enxergando nada. Na verdade ele já havia perdido totalmente a noção do que era certo ou duvidoso naquele momento. E munido dessa falsaquasecertezaduvidosa foi que ele dialogou com a Joaninha. Dialogou não, monologou. Sim, monologou, pois a Joaninha tão cansada estava que mal tinha forças para argumentar. Seus pensamentos não conseguiam se focar para acompanhar o raciocínio do Girassol; o cansaço entorpecia seus sentidos. Mas que raciocínio havia para se acompanhar ali? O Girassol usava justificativas fracas e prerrogativas sem nexo para justificar uma decisão sem motivo. Mas, por fim, ela se deu pôr vencida e partiu, deixando o Girassol sozinho. Havia uma sutil alegria no Girassol quando a Joaninha se afastou: finalmente ele estava livre das amarras que o prendiam a ela. E esse sentimento o alimentou e o nutriu... até ele encontrar sua amiga triste. Ela ouviu o girassol falar que seu amor pela Joaninha acabara e que os dois haviam decidido seguir trilhas diferentes. Mas a amiga do Girassol possuía o dom único do sexo frágil: a capacidade de sempre ver a verdade. E ela pegou essa verdade e a cantou para o Girassol.

River
(Joni Mitchell)

It’s coming on christmas
They’re cutting down trees
They’re putting up reindeer
And singing songs of joy and peace
Oh I wish I had a river
I could skate away on
But it don’t snow here
It stays pretty green
I’m going to make a lot of money
Then I’m going to quit this crazy scene
I wish I had a river
I could skate away on
I wish I had a river so long
I would teach my feet to fly
Oh I wish I had a river
I could skate away on
I made my baby cry

He tried hard to help me
You know, he put me at ease
And he loved me so naughty
Made me weak in the knees
Oh I wish I had a river
I could skate away on
I’m so hard to handle
I’m selfish and I’m sad
Now I’ve gone and lost the best baby
That I ever had
Oh I wish I had a river
I could skate away on
I wish I had a river so long
I would teach my feet to fly
Oh I wish I had a river
I made my baby say goodbye

It’s coming on christmas
They’re cutting down trees
They’re putting up reindeer
And singing songs of joy and peace
I wish I had a river
I could skate away on

Quando ela terminou o Girassol via que a lua já estava quase na metade do sol. Ele respirou profundamente e disse para sua amiga:
- Você está certa em uma coisa: eu sou alguém difícil de se lidar. E talvez eu também seja um pouco egoísta. Mas não estou triste. Eu fiz o que era correto. O que eu sentia pôr ela não me fazia mais sentir os joelhos bambos. E se isso não acontecia, quer dizer que não era mais amor. Eu vou esquecê-la e não me arrependerei quando o Natal chegar.
A amiga triste quis acreditar no Girassol. Ou assim ele quis pensar quando ela se calou e nada mais disse pelo resto do dia. Mas ela via a verdade que ele teimava em não querer enxergar...

domingo, agosto 15, 2004

O Girassol e a música 1

Certa vez o girassol conversou com a Rosa e lhe contou que conhecia um menina triste que adorava compor e cantar. Mas a Rosa lhe disse que ela gostava das músicas alegres e seu lado romântico ansiava por versos de amor concretizado e não de amor perdido.
Mas o girassol sabia que a Rosa também tem um poderoso lado filosófico. Por isso, quando encontrou a menina triste novamente, ele lhe contou sobre a Rosa e pediu-lhe que cantasse uma canção que tivesse um pouco do jeito da Rosa. E ela cantou para o lado filosófico da Rosa.

One Tin Soldier
(Joni Mitchel)

Listen, children, to a story
That was written long ago,
'Bout a kingdom on a mountain
And the valley-folk below.

On the mountain was a treasure
Buried deep beneath the stone,
And the valley-people swore
They'd have it for their very own.

Go ahead and hate your neighbor,
Go ahead and cheat a friend.
Do it in the name of Heaven,
You can justify it in the end.
There won't be any trumpets blowing
Come the judgement day,
On the bloody morning after....
One tin soldier rides away.

So the people of the valley
Sent a message up the hill,
Asking for the buried treasure,
Tons of gold for which they'd kill.

Came an answer from the kingdom,
"With our brothers we will share
All the secrets of our mountain,
All the riches buried there."

Go ahead and hate your neighbor,
Go ahead and cheat a friend.
Do it in the name of heaven,
You can justify it in the end.
There won't be any trumpets blowin',
Come the judgement day.
On the bloody mornin' after...
One Tin Soldier Rides Away.

Now the valley cried with anger,
"Mount your horses! Draw your sword!"
And they killed the mountain-people,
So they won their just reward.

Now they stood beside the treasure,
On the mountain, dark and red.
Turned the stone and looked beneath it...
"Peace on Earth" was all it said.

Go ahead and hate your neighbor,
Go ahead and cheat a friend.
Do it in the name of Heaven,
You can justify it in the end.
There won't be any trumpets blowing
Come the judgement day,
On the bloody morning after....
One tin soldier rides away.

sábado, agosto 14, 2004

A Lagarta que Chorava Dia e Noite - A História Completa

É injusto pensar que só a rosa sofre o drama de ser; todos os seres vivos – ou pelo menos aqueles que têm consciência de que existem – passam pelo mesmo. “É injusto pensar”... interessante como tudo o que nos fere nos parece injusto. E a palavra injustiça nos conduz a um caminho que pode se tornar tortuoso, quando nos remete aos conceitos de julgamento e balança. Que pesos e medidas usamos em nossa balança?
Sempre é relativo: se estamos julgando a nós mesmos, preferimos os pesos mais pesados que possuímos (seriam estes nossas palavras de maior credibilidade?), para então nos sentirmos leves, absolvidos. Em contrapartida, se são aos outros que julgamos, sempre utilizamos nossos mais leves pesos (seriam estes nossas palavras reticentes?)... E se a balança do outro nos pesa? Ficamos em tão mau posição...e a isto denominamos “injustiça”.
Este é, filosoficamente falando, o discurso básico de uma lagartinha esverdeada e pedante do jardim:
- Injusto! Injusto! – ela vive se remoendo, e vai se arrastando...
Na realidade, toda a lagarta que nasce no mundo desconhece que um dia se tornará uma bela e sábia borboleta. E isso torna tudo mais difícil: elas se tornam tão amargas e ressentidas que maioria morre antes da metamorfose (daí a crescente dificuldade de se encontrar uma borboletinha...). Além disso, elas reclamam tanto, tanto, que vão perdendo a capacidade de ouvir e, em casos crônicos, elas ficam inteiramente surdas.
O outro problema grave das lagartas é que elas tomam suas decisões baseadas apenas em suas necessidades e objetivos; e que o resto do mundo se conforme! E foi exatamente neste contexto que a referida lagarta do meu referido jardim decidiu, um dia, morar nas minhas folhinhas: ela simplesmente se aproximou de mim, olhando tudo ao redor e fazendo cálculos, deitou na folha e disse consigo mesma:
- É, aqui está bom, muito bom.
Eu sabia que não adiantava discutir; porém, tentei ao menos estabelecer um acordo, algo como uma política de boa vizinhança, embora ela fosse muito mais que uma vizinha, agora: estava dividindo o meu espaço comigo:
- Errr...dona lagarta, já que a senhora resolveu morar aqui nas minhas folhas, eu gostaria de dizer...
- Suas folhas? Ora, ora! – ela não me deixou nem continuar. – Que injustiça! Você ocupa este espaço todo no mundo, como fosse uma rainha, e ainda quer argumentar? – ela falava com um tom austero, e a cada palavra ficava mais verde e inchada.
Eu respirei fundo, muito fundo, como que imaginando que a paciência e calma estivessem misturados ao ar e falei:
- Com todo respeito, dona lagarta, eu tenho certos direitos; não só eu, é claro, mas todos os seres vivos e...
- Pois o meu direito é o de morar onde quiser, e o seu dever é respeitar o meu direito de ter direitos! Argh, Você é a rosa MAIS INJUSTA QUE CONHEÇO! – ela por fim gritou. E então deu-me às costas e adormeceu. E eu fiquei ali (claro) pasmada, sentindo-me meio ultrajada. Mas por fim concluí que teria que suportar a lagarta para um dia ter uma amiga borboleta. Isso paga a pena.
Porém, o tempo tem o poder de destruir muitas de nossas convicções e promessas. Meu dia-a-dia tornou-se meio insuportável; e eu não podia negar: era culpa daquela lagartinha! Às vezes me perguntava como aquela pequenina conseguia guardar em si tamanho amargor, e por tanto tempo!
Contudo, logo meu coração me alertava que todo ser possui a sua dor (eu mesma não tinha a minha?) e eu realmente não estava sendo justa em achá-la a pior de todas as criaturinhas do jardim (será que a lagarta tinha mesmo razão? ). Em meu íntimo, no entanto, havia um profundo desejo de fazer algo por ela; eu sabia que ela sofria. Por mais que disfarçasse, eu via as duas pequenas lágrimas que lhe caíam, quando o dia adormecia no fecundo silêncio do jardim. Afinal, ela estava bem ali, em minhas folhas e por mais que me esforçasse, não conseguia ignorá-la; penso mesmo que não queria fazê-lo. E o que mais me entristecia era o fato de, estando eu tão perto, estar ao mesmo tempo tão longe: ela não me deixava aproximar. Mas eu não desistia.
E nesta situação amanheceu mais um dia: frio, chuvoso, triste. A lagarta, porém, conseguia superá-lo! Estava completamente cinza! E como estava inchada! Mas resolvi enfrentá-la, assim mesmo, amedrontadora como estava:
- Bom dia, dona lagarta! Bom dia! - disse com entusiasmo.
- O que este dia tem ou terá de bom? - ela fez uma careta e encolheu-se no cantinho da minha folha.
Detive-me em observá-la melhor: ela estava mesmo mais inchada do que nunca! E eu já tinha observado anteriormente que ela sempre ficava mais inchada durante o dia. Não sabia ao certo o que estava acontecendo, mas se ela continuasse daquela meneira, iria simplesmente explodir! Não, eu não podia desistir!
- Dona lagarta, a senhora precisa crer que tudo vai melhorar! Apesar da chuva e do frio, o dia tem tudo para ser bom, pois estamos vivas e isso já é o suficiente para tudo se fazer novo outra vez! - eu por fim repliquei, reunindo toda a esperança que tenho de dias melhores.
Eu não podia acreditar! Ela estava calada, olhando-me, com uma expressão indecifrável. Pela primeira vez, eu cria que a lagarta estava refletindo em palavras que não eram dela mesma. E, de cinza, ela foi ficando verde, verde, VERDE e não mais pôde se conter:
- Arrr!!! As rosas são todas iguais! - ela gritou, exasperada. - Sempre com grande insensatez querem persuardir a todos de idéias nas quais nem elas mesmas acreditam! - ela estava realmente furiosa, bufando.
Não pude suportar aquilo! Grande decepção! Nada do que eu dissera surtira nenhum efeito positivo nela. Naquele momento, compreendi, muito amargamente, que não se deve tentar mudar a natureza ou a essência dos seres ou das coisas.
Ela não parava mais de me caluniar:
- O que você entende sobre a vida? Você não passa de uma flor inútil que está fadada a morrer seca, o que prova que nunca teve conteúdo e...
Desta vez, fui eu que não a permití continua: não haveria limites para uma revolta tão infundada? Sem titubear, empurrei uma folha minha dentro de sua boca, de modo que ela ficasse impedida de falar. Como ela ficou empertigada!
Então, forcei-a a olhar para mim; agora sim, ela teria que me ouvir!
Porém, ao olhar bem dentro dos olhos dela, fui eu quem ficou impedida de falar: como não percebera antes? Ali estava a verdade, como eu pude ser tão estúpida?
Pois, bem lá no fundo dos olhos da lagarta, havia alguém; alguém arrogante e desprezível: o besourão.
Naquele momento desvendei todo o mistério: o amargor da lagarta era amar um besouro.
Realmente não precisei dizer nada. Lentamente fui retirando minha folhinha de sua boca (fiquei meio envergonhada de minha atitude, passado o calor do momento).
A lagarta não gritou. Não falou. Não agrediu. Simplesmente chorou. Mas não foram duas pequenas lágrimas, daquelas que eu percebia todos os dias, na noite do jardim. Era uma torrente de lágrimas, que a mim pareciam brotar do mais íntimo do seu ser.
E eu não sabia o que fazer, vendo-a cada vez mais fininha, e concluí que todo aquele inchasso era fruto de um choro ao avesso: ela chorava pra dentro; e apenas quando não havia mais espaço dentro de si e testemunhas é que elase permitia aquelas duas discretas lágrimas, que comunicavam ao mundo - mesmo que este não percebesse - a sua dor.
Sim, amar é uma dor. Quanto mais quando se ama um besourão!
Um besourão é muito mais que cascudo: é impenetrável. Orgulhoso, não se permite amar, pois abomina qualquer tipo de doação. E, se deseja alguém ao seu lado, este alguém deve ser pomposo, belo e viajado e, de preferência, sem muitos sentimentos. Tudo o que uma lagarta não pode ser...
Por isso ela achava a vida, o mundo tão injusto!
Eu pensei em dizê-la que , em algum momento, tudo mudaria; que sua forma de existência não era eterna, mas apenas um estado.
Mas será essa revelação uma real ajuda? Teria eu o direito de interromper aquele processo, ainda que doloroso? Não será a dor o primeiro trecho do caminho da sabedoria?
Eu não era uma borboleta, como poderia saber com absoluta certeza?
Perdida em minhas divagações, nem percebi que a lagartinha tinha adormecido (outra vez...), tão magrinha; um sono diferente, sofrido, mas parecendo, ao mesmo tempo, aliviado.
Resolvi não perturbá-la mais. Bastaria, pra mim, que ela sentisse que eu lhe era solidária, mesmo que só em seus sonhos de lagarta adormecida pudesse sabê-lo. Eu estaria ali, se precisasse.
Mais uma vez olhei para aquela lagartinha e pus-me a pensar em todas as lagartas do mundo: será que eram como eram por que alimentavam um amor difícil e massacrante?
Então olhei o jardim até onde minha visão alcançava e meu questionamento tomou grande vulto: seria a dor que todos os seres sentem o legado de um malfadado amor?